2004 | Herança em Vestígios – Pedro Bresciane

2004 | Herança em Vestígios – Pedro Bresciane

Exposição coletiva – Encontro

Galeria Gravura Brasileira – São Paulo/SP

Registros atravessam o tempo e as experimentações. São frágeis conteúdos que migram em processos reprodutivos e se espelham em signos difusos, ora diluindo, ora recuperando a força insistente da memória.
Os sinais desconstruídos são vestígios ancestrais na mesma medida em que vão garantir a hereditariedade de seus pares. Algo essencial que se preserva é gérmem em desobrigada replicação. Receptáculos de significados autônomos, as obras apresentadas pelas três artistas são como arquivos dos fluxos de uma herança fugidia que não pretende se impor, mas que coexiste nos sutis desdobramentos de suas ações.

Alguns anos atrás, Maria Villares, em paciente espera pela ação do tempo, observou cuidadosamente fatias de maçã ganhando novas condições corpóreas.
Colocando-se em posição de testemunha da potência plástica que a vida reflete em seus movimentos, criou variadas composições as quais retinham uma inerente conservação da forma.
Os frutos ressequidos ainda guardaram os rastros formais de sua memória embrionária, tal qual os dados preservados em seus códigos celulares.
Em seus recentes trabalhos, Maria abrevia a ação do tempo numa observação intimista de radiografias. Seu olhar agora refuta a superfície da pele para imergir no interior do ente próximo, buscando ecos em seu próprio sistema de transmissão biológica.
Entre espelhos de sua condição materna, nos conduz por imagens -fragmentos, signos suspensos invadidos de luz que, entre interstícios, nos refletem índices de memória corpórea. São vestígios de existência desdobrada, percebidos em movimento dinâmico.
Suas imagens, aqui como nos anos anteriores¸ se configuram em simulacros do tempo gravado, infindável, num elegante registro poético de herança.

Margot Delgado lança mão em suas obras de meios de reprodutibilidade como o xerox, o fax e a gravura foto etching, num projeto de trabalho onde elege estes próprios meios como agentes do processo na mesma medida em que os subverte.
Uma imagem explora quase obsessivamente outra, não cópia, aonde vai abdicando dos excessos pelo caminho.
Ao manipular os meios, carregando em toner, reproduz uma área-cor, oferece aos vestígios recorrentes novos tensionamentos de ordem pictórica.
Em princípio, parece nada mais esperar do que a plena autonomia em cada uma das imagens, ao desconectar um fio linear multiplicador e instaurar no lugar a práxis circular investigativa.
Cada nova investida da artista por um diferente meio potencializa provocativamente nossas percepções, até retermos em clara memória arqueológica o sutil registro do que está se desnudando e, como em tudo o que é cíclico, as relações de parentesco transcendem a uma ordem de ancestralidade e descendência. As identidades ora se contrastam, ora se afirmam e a herança flui, sem se esvair, colhida pela artista em delicada atenção sensorial.
Ainda que uma imagem presa há anos em um mural de seu ateliê insista em tentar pontuar o início do processo, as imagens resultantes desta lhe garantem a condição eternizada do que é essencial.

Uma matriz em lixa de madeira confisca voluptuosamente, entre seus incisivos grãos, matéria oleosa de pastel de cores intensas, resignificando elementos figurativos.
Em atitude quase orgânica, Regina Dutra está, no enlevo de dar forma às sombras de sua lembrança, pintando com intuição e paixão.
Regina transporta através de calor entre a matriz e um papel virgem o excesso da matéria, em atitude plástica que permeia um estado de espírito .
Preservando identidade tênue com a matriz desigualada do duplicado, a artista conquista crescente sensorialidade na quase abstração resultante.
Entre a árdua disputa vibracional dos saturados vermelhos e verdes, o veículo oleoso se amálgama pelas beiradas, numa tentativa de enlace impossível. As cores terrosas em outras imagens remetem ainda aos óxidos, sinalizações dos desgastes e corrosões impostas pelo passar do tempo, manifestado como relicário deteriorado.
As analogias com imagens da antiguidade histórica que se prenunciam não são ocasionais, dada a relação quase arqueológica da artista em seu embate entre expressão e matéria.
O que sobra em mancha é metáfora. Num silêncio hermético, fica a potencialidade de as memórias refugiarem-se entre formas e sentimentos. Recordações de faces que um dia foram observadas, tais monotipias atestam uma particular sensibilidade da artista nas suas relações.

Pedro Bresciane
São Paulo, maio de 2004

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