1999 | Para além do princípio do prazer – Maria Alice Milliet

1999 | Para além do princípio do prazer – Maria Alice Milliet

Exposição individual – Muito além da maçã

Galeria Nara Roesler – São Paulo/SP

“Sublimation is a search in the outside world for

the lost body of childhood”.

Norman O. Brown

O corpo mobiliza a criação artística. Há uma tendência na arte contemporânea que encontra sua raiz na vida psíquica estruturada a partir de experiências corporais. Fantasias inconscientes geradas na mais tenra infância constituem o enredo subliminar dessas representações. Secretas histórias de amor e ódio, envolvendo primordialmente a mãe, depois o pai quando então se forma o clássico triângulo filho-mãe-pai, ressurgem nessas obras. Mãe e pai raramente aparecem por inteiro, vítimas que são de recorrente operação metonímica que das partes do corpo – seio, boca, genitais, ventre, vísceras, excrementos etc. – faz alvos do desejo infantil. Esses objetos de afeto ou repulsa podem ser substituídos por outros aos quais estão de alguma forma associados, tal como o útero à semente, à casca, à casa, à caixa e assim por diante. Sobre uns e outros, a criança projeta sentimentos contraditórios, amorosos e/ou agressivos. Desse padrão de interação sempre em crise resulta a ambiguidade dos significantes que inspira. Criam-se identidades, transferem-se emoções, correspondências são estabelecidas sem qualquer respeito às convenções. No reino da fantasia e da arte tudo pode.

O alcance dessa produção artística vai muito além do devaneio narcísico. Trata de experiências anteriores à verbalização que seguem sendo reforçadas ou minoradas por acontecimentos posteriores à primeira infância, em suma, uma subjetividade cuja existência depende fatalmente do outro, daí vem sua angústia, seu prazer e dor. O mergulho no universo da criança e da família – matriz de toda socialização – encontra em Louise Bourgeois sua maior expressão. Impossível não reconhecer em seus objetos e instalações o drama que encena. Na transposição do familiar ao simbólico, do anedótico ao mítico uma constante se impõe : o relacionamento conflituoso.

Quando Maria Villares começa a trabalhar a maçã, os conteúdos profundos que a motivavam, não eram evidentes. Olhando retrospectivamente, pode-se perceber a presença do arcaico em trabalhos anteriores, especialmente nos enormes desenhos de 1994 provenientes do registro de gravetos e pedaços de madeira recolhidos à beira mar então convertidos em seres totêmicos flutuando num espaço não referenciado, atemporal. Ainda antes, conchas, caramujos e corais apareciam em caixas de vidro que ela chama aquários. Nesse caso, era o mundo orgânico observado in vitro, a mesma postura distanciada que Maria assume ao lidar inicialmente com a maçã. Por um bom tempo, prevalece a disciplina própria da ciência. Seleciona e submete as maçãs a uma série de operações, recolhendo informações sobre seus diferentes estados. Observa as frutas inteiras ou em fatias finas depositas sobre folhas de papel como lâminas em laboratório; anota as transformações da matéria, ou seja, as mudanças de cor, as nódoas sobre o suporte, o enrugamento da casca, a redução da polpa, o enrijecimento, a mumificação. Procede depois a uma série de experimentos, realizando fotografias e fotocópias desse material, interferindo nos registros e reproduzindo-os em sucessivas operações.

Essa aproximação “objetiva” reveste de pseudocientificidade a primeira série de trabalhos. Entretanto, apesar da notável preocupação com o controle formal e técnico, o lúdico irrompe. É quando descobre que as maçãs fatiadas impressas em acetado transparente quando sobrepostas permitem jogos compositivos. Isso leva a objetos manipuláveis. Por outro lado, os cortes vistos em transparência fazem pensar em radiografias do corpo humano. Conhecer o corpo por dentro, sempre foi fascinante. Remexendo guardados, Maria encontra chapas radiográficas de órgãos internos que coloca na janela do ateliê, contraluz. Concomitante, vinha fazendo desenhos eróticos. Nada explícito, antes a apreensão topológica da sensação erótica, continuamente deslocada de uma região do corpo para outra. Na qualidade desses desenhos aflora uma sensibilidade madura. Entretanto, o meio gráfico, talvez porque já muito refinado, não lhe basta.

Maria, que havia reduzido o volume da maça à bi dimensionalidade pelo seu seccionamento, retoma repentinamente o tridimensional. O processo criativo, até então bem comportado, mostra uma ousadia, diria mesmo um despudor. A maça ganha corpo, vira um objeto semiesférico sobre a parede em cujo centro há um botão translúcido: um grande seio/maça intumescente, carnoso, assustador no seu gigantismo. Cabe aqui recordar as fantasias infantis em que o bebe, que no seio encontra sua maior satisfação, tem também impulsos agressivos para com seu objeto de prazer. Por frustração e medo da perda, a criança sonha sugar, morder, devorar o peito, em última instância possuir a mãe cuja onipotência chega a ser oprimente. Marcel Duchamp, sempre precursor, já isolava o seio em sua obra Prière de toucher de 1947.

O objeto cruciforme composto de 5 segmentos acoplados constitui um desdobramento do trabalho, ainda mais surpreendente. Estive aqui é o sugestivo título que Maria dá à obra. O modelo kleineano, que tem na fantasia inconsciente o princípio de estruturação da vida social, serve também à leitura dessa peça onde a maçã – fruto proibido – se confunde com o útero – lugar da gestação – em forma e cor. O tecido vermelho estofado e macio de que é feita a cruz reveste de carnalidade o símbolo cristão. A obscenidade dessa representação está em conjugar a ideia de sacrifício à de triunfo da carne.

Por fim, a bandeira tem uma maçã aberta ao meio estampada no centro e sobre ela a inscrição tirada do Gênesis … “o dia em que comerdes o fruto, se abrirão os vossos olhos sabendo o bem e o mal “. O estandarte cortado em tiras permite que se passe através. A Passagem, simbolicamente uma violação, é a via de acesso ao conhecimento conforme enunciado na sentença bíblica. Apesar dos impulsos agressivos implícitos nessas obras, não se pode ignorar que nelas existe algo da irreverência pop. A versão agigantada de objetos do real, os volumes recheados, as cores brilhantes fazem pensar nas esculturas moles de Claes Oldemburg. Transitando do comestível ao erótico, do banal ao simbólico, da maçã ao seio, à cruz, à cortina de botequim, a artista incorpora humor ao seu trabalho, ingrediente indispensável ao equilíbrio dessa equação plástica.

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