1998 | Os Transfinitos Universos da Maçã – Norval Baitello Junior

1998 | Os Transfinitos Universos da Maçã – Norval Baitello Junior

Exposição individual – Muito Além da Maçã

Galeria Nara Roesler – São Paulo/SP

O Outro Lado do Fruto Proibido

Um dia, Maria Villares desenhou a maçã. E, desenhando, descobriu, nas entranhas do fruto, a anatomia do grande mito, o principal e fundante mito da cultura ocidental, mas não apenas na sua superficial versão do proibido fruto do jardim do éden. Descortinou, nas entranhas da maçã, as homologias entre o mundo e o útero, vale dizer, entre o céu e o êxtase. E, como em todo mito há uma origem, também no fruto há ora um feto, ora uma foto, ora um fato, todos por se descobrir, por se revelar. Um feto, uma foto e um fato sempre apontam para o desvendamento de um segredo, o desenrolar, o desdobrar, o desenvolver de uma possibilidade, o desabrochar de uma nova forma. São sempre narrativas em aberto. Tal qual a anatomia da maçã, por Maria Villares, um narrar apontando para possibilidades em aberto.

Os Transfinitos no Seio da Maçã

E a maçã transforma-se em tema, motivo e personagem, que se desdobram todos em infinitas variações e mostram infinitas facetas. Como o Aleph de Jorge Luis Borges, o infinito não é exterior, mas interior. Como na matemática dos números transfinitos, a maçã contém um mundo em seu âmago, na sua alma mais íntima e insondável. Não é outra a essência dos símbolos – como o símbolo ‘maçã’ – e seu destino: ser parte que contempla o todo, ser o ponto que contém o universo, ser o ínfimo que abriga o infinito. (Como também não é outra a sina da semente, ou, igualmente, a do espaço uterino: conter o novo ser, em embrião). E para compreender essa matemática mítica do infinito dentro do finito é que Maria Villares vem experimentando com a maçã e seus desdobramentos: cortando, laminando, secando, deixando-a entregue aos vermes da decomposição ou conservando-a com formalina, acompanhando o seu enrugar de pele , fotografando suas configurações em mudança, observando-lhe os sucos da decomposição e sobretudo produzindo registros inconvencionais a partir da maçã e seus desenhos. Estes registros se desdobram em muitas séries, usando suportes, materiais e técnicas diversos: esboços e estudos em papel, maçãs laminadas sobre acetato, monotipias, e desenhos sobre papel vegetal, caixas, transparências. Tudo se desdobra em uma nova face da maçã, transfinitamente.

Os Movimentos da Maçã

Sua atenção de observadora naturalista, contudo, não é maior que sua capacidade de gerar superposições metafóricas, desdobrando seu objeto em séries infinitas de associações míticas, culturais, históricas, buscando significados profundos para os fenômenos da natureza. Assim nascem as séries de transparências, resultado de fotos de lâminas de maçãs. São fotos que ora se transfiguram em fetos, sempre acompanhados de traços, redesenhados, em seu movimento de arco, de coluna vertebral em curva. Ora as transparências são elas mesmas o desnudamento do íntimo da maçã, ora são pretextos para um desnudamento ainda mais profundo dos fatos que a maçã passou a simbolizar, o útero e seu fruto, o êxtase e a sua vez, a sua imperiosidade. O movimento da maçã é sempre concêntrico, como todo transfinito: infinito voltado para si mesmo e seu âmago.

O Fogo, o Sopro e a Sensualidade

O movimento da concentricidade, presente nos cortes e lâminas, longitudinais ou transversais, apontando para a fertilidade, para a semente, para o feto, trazem de volta o princípio da vida. Nos mitos ocidentais da criação o sopro representa o gesto primordial. Maria Villares retorce fios de cobre em movimentos fetais, sobre eles o sensível papel-arroz, ou então seleciona lâminas diversas dos diferentes cortes da fruta em baixo do mesmo papel, e aplica por fim sopros de ar quente, deixando sobre o papel o registro do sopro, do fogo e da sensualidade, da maçã e seus movimentos, seus espaços e suas entranhas. Resulta o registro do êxtase como gesto primordial da criação. A maçã transfinita, objeto da arte de Maria Villares, deixa vislumbrar um Deus sensual que sussurra seu hálito quente sobre as sementes, transformando-as em criaturas.

[versão: Agosto de 98/ estado: 27.8.9. nbj]

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