1994 | Maria Alice Milliet para Exposição na Galeria Nara Roesler

1994 | Maria Alice Milliet para Exposição na Galeria Nara Roesler

Exposição individual – Maria Villares

Galeria Nara Roesler – São Paulo/SP

Maria apresenta sua primeira individual: explícito confronto entre a exuberância cromática da pintura e a severidade do desenho.

O pleno domínio dos meios expressivos deriva de uma obstinação silenciosa e atesta a maturidade da obra. Não há gratuidade nem espontaneismo no fazer; a qualidade plástica do conjunto está lastreada no conhecimento aprofundado de técnicas tradicionais as quais a artista incorpora recursos alcançados na experimentação. Existe ímpeto e contenção, lirismo e dramaticidade no exercício “dos esforços fiéis e das surpresas provocadas” (Bachelard).

A poética de Maria envolve sempre o drama da matéria enquanto resistência e transformação. É no atrito entre o ser e o devir que investe sua criação.

Durante a infância das filhas, iniciou-se na cerâmica realizando objetos utilitários até que a exploração da forma escultórica se impôs. Uma botânica imaginária feita da invocação de sementes e cascas configura-se em esculturas onde cerâmica e bronze estão associados. Cápsulas em que os núcleos em barro esmaltado são envolucrados pelo metal rugoso. É o diminuto que se agiganta, livre das grandezas estabelecidas.

A passagem da cerâmica para a aquarela ocorreu após um período de intensa inquietação. Em ateliê improvisado e sem luz natural a artista dedicou-se ao desenho a carvão e grafite saindo dali para um espaço maior e a irrupção da cor em seu trabalho.

E chegamos ao aquário seco, fonte de inspiração plástica, lugar onde são metabolizadas as imagens de seus trabalhos seguintes. Maria acumulou em recipientes de vidro lembranças das praias percorridas: conchas, caramujos, seixos, gravetos, fragmentos de rocha… Reteve ali o encanto pelo estranhamento de formas e cores, produzido pelo desgaste da água e do vento nos objetos recolhidos. Eis-nos diante de uma beleza arcaica.

Da contemplação deste microcosmo derivam de início aquarelas e a seguir pinturas sobre tela. Nas obras sobre papel, manchas aquareladas formam com a trama linear composições sutilmente articuladas. Nas telas, numa primeira fase, persiste o temperamento aquoso, translúcido da aquarela. Superada a transposição para a nova técnica, o campo amplia-se e o óleo impõe seu caráter. A massa pictórica ganha densidade pela sobreposição de camadas ou quando a tinta é encorpada com outros materiais. A cor percorre a escala cromática e chega a saturação. A linha, decorrente de uma gestualidade sem hesitação, energiza a tela. Na produção atual, a pintura afirma sua autonomia: na materialidade – tinta e suporte – reside a substância do seu próprio vir a ser.

“Em viagem ao Maranhão, a artista recolheu pedaços de madeira abandonados pela maré. Através de uma série de pequenos desenhos empreendeu o reconhecimento destes fragmentos corroídos pela água salgada, pelo roçar da areia, fustigados pelo vento. A ação agressora deixara marcas e encontrara resistências. Saliências e reentrâncias inscreveram-se nas superfícies outrora lisas transformando os volumes em formas torturadas: toda uma história ficara registrada naqueles corpos.

Retornando a São Paulo, Maria transportou algumas destas anotações para grandes dimensões sobre papel, tela ou poliéster. Começa uma nova fase em sua obra.

Os detritos assumem aspecto de entidades ancestrais dramaticamente tratadas em preto, branco e gradações de cinza. Flutuam como meteoritos. Solitários ou em dupla emergem fantasmáticos do espaço vazio em lenta aproximação ou no centro de um turbilhão de luz.

Maria Alice Milliet
Setembro 94

Leave a Reply