Textos críticos
Maria Villares

A Arte de Maria Villares

Norval Baitello Junior/Agosto de 98

1.Os Caminhos que conduzem aos Caminhos

1.1.Histórias do Tempo e de Guerras Invisíveis

Maria Villares desenhou, com olhar atento, os gravetos que as areias da praia costumam acolher com indiferente atenção. Desapercebidos pela praia e descartados pelo mar, transformam-se, nas mãos da artista, em registros, em história de embates. Quando desgastados, desfalecidos e corroídos, contam histórias que a artista ausculta e traduz com traçado sensível. Texturas e faces angulosas, rugas, sulcos e dobras, vincos do tempo que não se pode medir, mas que ali está, inegável e irreversível. Porém, mais que sobreviventes do tempo que passou e deixou marcas, os gravetos de Maria Villares são sobreviventes de uma guerra, retornados de um mar de permanentes turbulências, são náufragos desesperados e desesperançados, desiludidos da batalha pela vida. Por isso seu traçado em pungente carvão tosco, lembrando os expressionistas nórdicos, que também registraram um tempo de guerras trágicas. No entanto, a artista dá voz e vez aos gravetos desfalecidos, coloca-os em um palco, transforma-os em heróis que relatam sobre um tempo heróico e mítico. Sob a dura inscrição em carbono - carvão e grafite - revela-se sua face diamante, uma memória de luz.

1.2. A Cigarra Laboriosa

Maria Villares desenhou cigarras, com o duro rigor düreriano, ou com um germânico naturalismo de detalhes micrométricos. São desenhos embebidos, porém, de suave poesia minimalista em cada traço, na economia das cores e sobretudo na sutil referência, discreta homenagem de laboriosa formiga ao papel nobre da fabulosa cantatriz. Os delicados traços a bico de pena mapeando as nervuras e os multicoloridos reflexos estampados nos desvãos das asas do mítico inseto-artista atestam a revisão do estigma milenar. A sofisticada elaboração do desenho exige um redescobrir e um repensar das relações e da história de seu objeto, a cigarra, e os mitos, lendas e fábulas que se criaram ao seu redor. Metalinguagem ocorre quando a arte se debruça sobre seu próprio fazer. Mas não é apenas este exercício de auto-olhar o procedimento seguido pelo artista. A busca do não-sentido de uma cisão moralista entre o canto-arte e o trabalho-vida resultam em uma dupla muito mais interessante: canto-vida e trabalho-arte. A arte da vida estará disseminada bem como o canto do trabalho, como no testamento do poeta Rilke e no diagnóstico do filósofo e também poeta Dietmar Kamper em Trabalho como Vida (S. Paulo: Ed. Annablume, 1996).

 

1.3. A Cor desafia o Traço

Maria Villares pintou, sobre as telas, cores e texturas, mas em disputa acirrada entre o carvão primordial que traça seu traço sem cor e a cor encorpada com cera de abelhas e terebintina, que insiste em sobrepor, transpor, contrapor os limites e contornos impostos pela linha. A mesma mão conduzida pelo carvão se rebela, mancha e desmancha, com exuberantes cores, a ditadura da linha, numa explosão monetiana, calculada, dos contornos e da forma, pela cor e pela luz.

 

1.4. O Fogo e o Flamboyant

Maria Villares, tal qual oleira generosa (contrariando carinhosamente o ciúme das oleiras, mapeado por Levy-Strauss) plasmou com as mãos as entranhas das vagens e as sementes do flamboyant. Terra e água, ar e fogo mesclam-se harmoniosamente na cerâmica, referência mítica à criação primordial, ao princípio feminino dos deuses, de gerar nas entranhas, e ao seu princípio masculino, de gerar com as mãos. As cerâmicas de vermelho-terra e os bronzes enegrecidos de sementes e vagens de flamboyants (essa flamejante e sensual árvore dos trópicos, anunciadora do verão) são frutos do fogo, tal como o ferreiro e o oleiro são os “senhores do fogo”, e assim o cultuam, e assim o reverenciam.

 

[versão: Agosto de 98/ estado: 27.8.9.  nbj]