Textos críticos
Maria Villares

Maria Villares

pintura, monotipias e objetos

Maria Villares é hoje uma artista no exercício pleno de suas potencialidades. A segurança com que transita por várias formas de expressão veio com o tempo. Embora tenha iniciado seus estudos de arte na adolescência com Nelson Nóbrega, só se entendeu artista na maturidade. Começou a pintar nos anos 1980. Dez anos trabalhando com cerâmica utilitária lhe deram disciplina e conhecimento técnico. Quando abandonou o torno, trocou o apuro da forma pela experimentação plástica e a expressão de uma inquietação existencial. Passou pelos ensinamentos da Escola Brasil e de Carlos Fajardo, e soube resistir aos apelos de modismos fáceis, dedicando-se ao trabalho no silêncio do ateliê. A perseverança, muitas vezes angustiada, com que buscou conjugar vida e obra acabou por gerar uma produção multifacetada cujo fio condutor é o desenho.
Por meio de anotações feitas em cadernos ou folhas esparsas, Maria foi compondo um insólito repertório de registros da realidade e memórias sensoriais. Não se deve supor, entretanto, que sua obra em papel ou tela seja precedida por projeto gráfico. As linhas, os contornos e as formas descritas podem derivar da observação ou da lembrança. Sua pintura sempre acolhe o gráfico. Eventualmente usa um desenho antigo como estímulo para, na tela, soltar o gesto, sempre livre de convenções e sujeito ao impulso do momento. Visceralmente pictórica – Maria é uma excepcional colorista –, sua pintura tem o lirismo perturbado pelo gesto nervoso, incisivo, capaz de insinuar figuras inquietantes. Em suas grandes telas, a tensão entre o pictórico e o gráfico não deixa ninguém indiferente.
Pode-se dizer que essa pintura vai no sentido inverso do “quietismo” característico da obra de certos pintores ativos em São Paulo. Ao contrário da contenção exibida nos quadros de Sérgio Sister, Paulo Pasta e Marco Giannotti, seus contemporâneos, há uma indisfarçável passionalidade no seu fazer. Talvez por isso a pintura de Maria ainda incomode.
Trabalha a tela fora dos chassis. Primeiro, na horizontal, com o tecido estendido sobre uma grande mesa. Começa sujando a superfície com tinta bem diluída e segue aplicando uma demão após a outra. Na medida em que se vai produzindo essa sobreposição, a matéria pictórica se adensa desigualmente, sugerindo profundidade, fusões ou transparências, conforme a tela esteja mais ou menos seca. Para melhor controlar esses efeitos, pinta dois ou mais quadros ao mesmo tempo. Numa segunda etapa, prega a tela na parede. A pintura prossegue mais pontual, feita de manobras decididas do pincel e de manchas e borrões obtidos com o esfregar das mãos sobre o suporte. Os traços, as inscrições a carvão ou mesmo a pincel começam logo, pois são as próprias manchas que, no dizer da artista, “solicitam, pedem, sugerem linhas como diretrizes que de algum modo amarram, seguram o despontar da composição, que segue sendo trabalhada”. As figuras irrompem como aparições fantasmáticas num campo de cor. Ao longo desse processo, há momentos de caos, de desequilíbrio, momentos em que Maria acrescenta, atenua, insiste, desmancha, encobre, lidando com o imprevisto, com formas que nascem da própria pintura. Alguns quadros se resolvem rapidamente, outros demoram meses, até anos, para serem finalizados.
A importância da pintura no conjunto da obra de Maria Villares e na exposição a que se refere este catálogo não obscurece a presença de um pequeno lote de monotipias no espaço da Galeria. Elas dão conta de uma produção que segue paralela à pintura e que inclui a gravura em metal e técnicas atuais de reprodução da imagem. Sóbrias, requintadas na composição e na contenção da cor, essas monotipias são grandes obras em pequenos formatos. Têm em comum com a pintura o aproveitamento dos acontecimentos aleatórios resultantes da tinta prensada sobre o papel. O fato é que qualquer que seja o suporte, a construção da imagem deriva sempre da dialética entre intenção e acaso. A propósito, não há porque omitir que essa pintura remete à Francis Bacon e Flávio Shiró, pela afinidade de linguagem e pela exumação de conteúdos simbólicos através do próprio ato de pintar.
Resta mencionar os pequenos e discretos objetos modelados em porcelana branca que complementam a mostra. Eles funcionam como uma intervenção no conjunto da exposição, apontando para um retorno às origens, à Maria ceramista das primeiras esculturas em argila. Vinte anos depois, a pureza do branco e as formas orgânicas dessas peças não deixam de recordar os ossos e gravetos, as conchas e os pedaços de madeira descorados pelo sol que, naquele tempo, Maria costumava recolher em suas caminhadas à beira-mar.

Maria Alice Milliet
verão de 2008